sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Take five de 4

video

Uma amostra do que pode ser uma de nossas
segundas-feiras.
os músicos: Ralph (guitarra), Fred (violoncelo), Sito e Gil (percussão).

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Qualquer que seja a cor

Rosa. Rosa acorda tarde, devora sanduíches de sardinha logo pela manhã. De resto, faz tudo como todo mundo. É quase um ser coletivo: sente o amor como se fosse a irmã, detesta azeitonas e manteiga igualzinho ao pai, faz pouco caso das histórias como costuma fazer a sua melhor amiga.

O nome combina bem com ela. Rosa é bonita, mas não tem aquele encanto de margaridas, gérberas ou copos-de-leite. Rosa é rosa. Nada de roxo, verde-limão ou branco. Não, não, o branco é aberto demais para ela.

Quando pinta os cabelos, escolhe o loiro claríssimo. Quando usa um vestido, procura os que lhe marquem as formas. Mas é rosa, e Rosa não tem meios tons. É chapada como uma lâmina de alumínio, só que sem brilho.

Então, me surpreende vê-la metida num vestido amplo e azul turquesa. O que se passa com Rosa? Ela que namorar o vizinho.

Rui. Rosa e Rui. Ele não sabe. Nunca teve olhos para Rosa, porque ele é ocre. Odeia cabelos loiríssimos. Já bateu-boca com a dona do carro vermelho do final da rua porque a fulana passava o batom enquanto ele esperava para ocupar a vaga.

É um bruto pensante. Cheio de teorias sobre os outros, o aquecimento global, as dobras do tempo. Trabalha com um grupo de crianças carentes, oferecendo a elas o seu "conhecimento" do mundo. Um mundo ocre. Nada de nuances.

Rosa e Rui precisam se conhecer.




sábado, 12 de dezembro de 2009

Receita




Medite.



quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Semente

Todo dia. Todo dia mesmo. Às vezes variava o horário, porque nos dias de chuva ele acordava mais tarde e isto comprometia o ritual. Mas, mesmo assim, ele se sentava no banco, comprava sua cerveja (sempre a mesma marca) e despejava devagar a bebida no copo longo e fino, enquanto pensava em partir.
Desconhecia vontade que não fosse esta, beber e partir. Beber e partir-se.

Mas houve o dia em que ela surgiu. Antes dela, porém, veio a vontade dela de sentar-se com ele. Depois chegaram o vestido cinza e branco, os pés muito curvos de bailarina e aquela conversa toda de mulher que gosta de ver, perguntar e falar.
Ele ouviu. Ele bebeu. Um punhado de palavras flutuou pelo banco até depositar-se dentro dos sapatos vermelhos que ela tinha acabado de tirar. Eram as palavras dele. Secretas e cheias de uma vontade nova e assustadora.



terça-feira, 8 de dezembro de 2009

...

Praticando a escrita quase automática para ver se me livro de entulhos.
Para sair uma palavra que preste, algo que valha a tinta da caneta, é preciso tirar o lixo. Uma montanha de sensações ajustadas demais ao clima interior.
Então, importa abrir as portas e despejar tudo fora, sem cuidado, sem vergonha, às pencas ou aos poucos.

Trabalho duro. Faxina mesmo. E finalmente acontece o dia da casa estruturada sobre as palavras que dizem, de fato, o que quero dizer.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O golfe, o nó inglês e Paul Auster

Ela retoma contato com um ex-professor de inglês que joga golfe. Ele lhe pergunta: Como vai o seu inglês? Ela diz: Que inglês? E solta uma gargalhada.
No dia seguinte, ela conhece um irlandês num pub. Tenta conversar com ele, mas se complica. Sente na ponta da língua a precariedade de seu inglês. Imediatamente se lembra do ex-professor de inglês. O irlandês não fala direito o português, mas ela entende perfeitamente quando ele diz: jogo golfe todos os dias. Onde? Acostumada com esse tipo de "coincidência", ela adivinha a resposta: No mesmo lugar onde joga seu ex-professor.
Obviamente, já jogaram juntos.

Esse tipo de acontecimento me rouba noites inteiras de sono. E esse tipo de acontecimento vive me acontecendo. Quem lê meus contos, sabe que tiro proveito disso. Saio da perplexidade escrevendo. E invento. É um modo de ajeitar esses mistérios dentro de mim. Não explico nada, não acomodo. Só aceito.

Hoje fiquei sabendo que Paul Auster, um dos escritores contemporâneos que mais admiro, é movido pelo mesmo tipo de combustível. Calma aí! Não estou tentando me comparar a ele. Só levanto a lebre, porque algo na escrita dele, com toda certeza, reflete essa mesma perplexidade não acomodada. Então, me dá prazer dizer que gosto de Paul Aster porque ele, no fundo, ia me entender. Talvez nem gostasse de meus contos, mas falaríamos deles de algum ponto compartilhado.
E, sendo esta mais uma "coincidência" a respeito de coincidências, chego à conclusão de que em algum conto de Paul Auster, em algum conto daquele livro dele que coloquei dentro do carro ontem para levar não sei onde, sim!, lá, é lá que vai estar a chave que impulsiona o enigma do golfe, do irlandês e do ex-professor de inglês.
É sempre assim.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Dentro dela

Que nome dar a ela? Que nome?
Rita.
Pois bem, ultimamente a Rita anda pairando. Desplantou os pés do chão daquela casa tão incerta e tem cismas de viajar. Pensou de cara na Itália, mas tanta coisa acontece na vida da Rita que a Itália pode se transformar no Marrocos, na Mongólia ou na ilha mais remota do planeta. A Rita...

Eu disse que tanta coisa acontece com a Rita, mas não expliquei que quase tudo se passa mesmo é dentro dela. Ali onde correm as veias, onde os músculos se retesam. Onde coração, fígado e cérebro a moldam para a vida. Para a sua vida cheia de sonhos. Cheia, cheia. A Rita deseja assim que acorda. Só então se levanta, escova os dentes e olha o fundo do próprio olho no espelho. E lembra: "Tão bonito que voa", e ri de si própria e pede perdão para Clarice Lispector por tamanho furto.
Depois disso, a Rita vive.