Ela retoma contato com um ex-professor de inglês que joga golfe. Ele lhe pergunta: Como vai o seu inglês? Ela diz: Que inglês? E solta uma gargalhada.
No dia seguinte, ela conhece um irlandês num pub. Tenta conversar com ele, mas se complica. Sente na ponta da língua a precariedade de seu inglês. Imediatamente se lembra do ex-professor de inglês. O irlandês não fala direito o português, mas ela entende perfeitamente quando ele diz: jogo golfe todos os dias. Onde? Acostumada com esse tipo de "coincidência", ela adivinha a resposta: No mesmo lugar onde joga seu ex-professor.
Obviamente, já jogaram juntos.
Esse tipo de acontecimento me rouba noites inteiras de sono. E esse tipo de acontecimento vive me acontecendo. Quem lê meus contos, sabe que tiro proveito disso. Saio da perplexidade escrevendo. E invento. É um modo de ajeitar esses mistérios dentro de mim. Não explico nada, não acomodo. Só aceito.
Hoje fiquei sabendo que Paul Auster, um dos escritores contemporâneos que mais admiro, é movido pelo mesmo tipo de combustível. Calma aí! Não estou tentando me comparar a ele. Só levanto a lebre, porque algo na escrita dele, com toda certeza, reflete essa mesma perplexidade não acomodada. Então, me dá prazer dizer que gosto de Paul Aster porque ele, no fundo, ia me entender. Talvez nem gostasse de meus contos, mas falaríamos deles de algum ponto compartilhado.
E, sendo esta mais uma "coincidência" a respeito de coincidências, chego à conclusão de que em algum conto de Paul Auster, em algum conto daquele livro dele que coloquei dentro do carro ontem para levar não sei onde, sim!, lá, é lá que vai estar a chave que impulsiona o enigma do golfe, do irlandês e do ex-professor de inglês.
É sempre assim.